- O que você quer, Samanta?
Ela se pergunta, no parapeito. Há dias não sai de casa. Olha A Ilha sempre amaldiçoada, lê as notícias na internet e não consegue sair. Teme outra tragédia, como aquela que aconteceu quando ela era criança.
As coisas em casa já estavam acabando. Só mais um pouco de café, leite, alguns ovos, uns pacotes de bolacha maisena. Samanta achava que podia sobreviver com isso ainda por um tempo.
O trabalho já estava perdido, mas também não era nada genial. Publicidade de uma pequena empresa, não podia fazer um trabalho muito criativo. Em casa, desenhava hq's. Achava que tinha muito talento. Mas não mostrava a ninguém, um pouco por medo que roubassem suas idéias, um pouco por medo de ser descoberta e ter que mudar de vida, deixar a cidadezinha em que morava. Queria, mas tinha medo. Um medo que a impedia até mesmo de saber que queria mudar.
- O que você quer, hein, Samanta?
Na rua as pessoas agiam normalmente. Fora um comentário ou outro sobre a calamidade nA Ilha, tudo corria normalmente. Parecia que só Samanta não conseguia sair de casa.
- E como você acha que a humanidade iria receber essa notícia?
Dizia J., O Cientista, bebendo mais um gole de Malibu. Seu nome era João, mas preferia ser chamado de J.. Era O Cientista mas não oficialmente, digamos, reconhecido pela sua comunidade. J. estava fora do paradigma. Sozinho no seu laboratório nA Ilha, porém, havia descoberto muita coisa.
- Mal, provavelmente. Nem todo mundo tem a mente aberta pra essas coisas.
Bem, J. não estava exatamente sozinho nessa. Nara respondia de um sofá em que, "esparramada", como ela mesma gostava de dizer, acariciava Mojo, o gato do laboratório.
- Tudo indica que A Ilha está sendo vítima dele.
- Ou dela...
- Sim, sim, tanto faz - J. enche o copo até sair a última gota de Malibu da garrafa - isso não importa... puta merda, acabou o Malibu.
- Como assim acabou? Tinha meia dúzia de garrafas aí ontem!
- Ontem vírgula, minha fofa. Isso faz uma semana.
- Que seja! Você bebeu tudo em uma semana!
- Não venha dizer que você não ajudou.
- Faz uma semana que estive aqui, te ajudei a tomar uma garrafa, foi só. A não ser que foi outra...
- Lá vem...
- Desculpa J.
- Pelo amor de deus, você sabe como eu sou, eu nem falo com ninguém nessa ilha. Só com você e com o cara da loja de bebidas.
- Ok, Ok, já parei.
- Ok. Até porque tem coisa bem mais importante pra gente discutir. Você conseguiu?
- Conseguiu o quê?
- Prender a Carmem Sandiego! Quê mais poderia ser?!? Nara, o programa!
- Ah, isso. O código está quase pronto. Só está com um probleminha, acho que preciso da sua ajuda no cálculo de uns limites. Tá dando divisão por zero, e não consigo consertar.
- E eu que reprovei 7 vezes em cálculo I!
- Eu não me lembro mais dessas coisas. Você sabe que tenho memória fotográfica de curto prazo.
- Pra certas coisas é bem longo esse prazo... - Vou ligar pro cara das bebidas, quer alguma coisa, fofa?
- Fofa, né? Fofa porque eu é que vou pagar a sua bebida né?
- Puxa, como você adivinhou?
- Ainda tira uma com a minha cara! Não vendeu mais alarmes?
- Quem é que quer alarmes nessa situação? Acho que vou inventar é uma daquelas coisas individuais de voar. Nem barcos adiantam nos piores dias.
- Você devia inventar uma bebida, isso sim.
- Eureca! Isso sim é uma grande idéia! O que é que todo mundo quer no meio da desgraça? Beber!!! Nara, você é um gênio.
- Eu sei. Só sou preguiçosa demais para ficar rica, não é? Igualzinha a você né, Mojinho? - Acariciando a barriga do gato que está deitado em seu colo - Bom, pelo menos é bem provável que todo mundo fique pobre depois do que, segundo suas previsões, vem por aí...