sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sufocando epifanias

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A eterna batalha semântica pelo sentido tem somente um desfecho: derrota. Não há falta de mérito nesta prática, contudo, espera-se que não haja apenas um sufocamento: é preciso a morte. Para qual outro propósito serve a escrita, pergunto-lhe. Recorrer ao significado postularia uma resposta, quando na verdade o intuito é outro. Retomemos o propósito: sufocar-nos-emos, porque esta é a maneira de acabar com elas que nos perseguem – um adversário mais poderoso merece o respeito da procura de um mero empate. Encerrada as questões, sobra algo além? Seria apenas o começo e andaríamos por cima dos cadáveres das epifanias.

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FIM

quarta-feira, 4 de março de 2009

“Cale a boca – e engole essas lágrimas”.

Um comando de tom preciso. Tomada de surpresa, Sara arregalou os olhos e logo virou a cara. Movimento reflexo, Alécia segurou bruscamente o braço de sua amiga, impedindo a rápida fuga. “Direto ao ponto, garota – não farei falsas promessas: nem sempre estarei do seu lado e nem tudo ficará bem – a vida acontece”. Sara sentiu as palavras da amiga como uma pesada verdade. Lágrimas por banalidades, podia tudo sumir de uma vez, arrastar todas as ilusões para o inferno, acabar e acabar – faria toda diferença e por isso significava algo. Uma imensa vontade de dizer para a amiga quaisquer palavras importantes de amizade tomou Sara por inteira a ponto de sufocá-la. Alécia encarava a amiga e sentia satisfação por ter conseguido chamar sua atenção. Em todo seu interior, Sara tremia e sentia cada segundo desperdiçar um momento único sem prerrogativas ilusórias. Sara traduziu todas as palavras não ditas ao segurar firme a mão de Alécia.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A Ilha - parte II

- O que você quer, Samanta?
Ela se pergunta, no parapeito. Há dias não sai de casa. Olha A Ilha sempre amaldiçoada, lê as notícias na internet e não consegue sair. Teme outra tragédia, como aquela que aconteceu quando ela era criança.
As coisas em casa já estavam acabando. Só mais um pouco de café, leite, alguns ovos, uns pacotes de bolacha maisena. Samanta achava que podia sobreviver com isso ainda por um tempo.
O trabalho já estava perdido, mas também não era nada genial. Publicidade de uma pequena empresa, não podia fazer um trabalho muito criativo. Em casa, desenhava hq's. Achava que tinha muito talento. Mas não mostrava a ninguém, um pouco por medo que roubassem suas idéias, um pouco por medo de ser descoberta e ter que mudar de vida, deixar a cidadezinha em que morava. Queria, mas tinha medo. Um medo que a impedia até mesmo de saber que queria mudar.
- O que você quer, hein, Samanta?
Na rua as pessoas agiam normalmente. Fora um comentário ou outro sobre a calamidade nA Ilha, tudo corria normalmente. Parecia que só Samanta não conseguia sair de casa.

- E como você acha que a humanidade iria receber essa notícia?
Dizia J., O Cientista, bebendo mais um gole de Malibu. Seu nome era João, mas preferia ser chamado de J.. Era O Cientista mas não oficialmente, digamos, reconhecido pela sua comunidade. J. estava fora do paradigma. Sozinho no seu laboratório nA Ilha, porém, havia descoberto muita coisa.
- Mal, provavelmente. Nem todo mundo tem a mente aberta pra essas coisas.
Bem, J. não estava exatamente sozinho nessa. Nara respondia de um sofá em que, "esparramada", como ela mesma gostava de dizer, acariciava Mojo, o gato do laboratório.
- Tudo indica que A Ilha está sendo vítima dele.
- Ou dela...
- Sim, sim, tanto faz - J. enche o copo até sair a última gota de Malibu da garrafa - isso não importa... puta merda, acabou o Malibu.
- Como assim acabou? Tinha meia dúzia de garrafas aí ontem!
- Ontem vírgula, minha fofa. Isso faz uma semana.
- Que seja! Você bebeu tudo em uma semana!
- Não venha dizer que você não ajudou.
- Faz uma semana que estive aqui, te ajudei a tomar uma garrafa, foi só. A não ser que foi outra...
- Lá vem...
- Desculpa J.
- Pelo amor de deus, você sabe como eu sou, eu nem falo com ninguém nessa ilha. Só com você e com o cara da loja de bebidas.
- Ok, Ok, já parei.
- Ok. Até porque tem coisa bem mais importante pra gente discutir. Você conseguiu?
- Conseguiu o quê?
- Prender a Carmem Sandiego! Quê mais poderia ser?!? Nara, o programa!
- Ah, isso. O código está quase pronto. Só está com um probleminha, acho que preciso da sua ajuda no cálculo de uns limites. Tá dando divisão por zero, e não consigo consertar.
- E eu que reprovei 7 vezes em cálculo I!
- Eu não me lembro mais dessas coisas. Você sabe que tenho memória fotográfica de curto prazo.
- Pra certas coisas é bem longo esse prazo... - Vou ligar pro cara das bebidas, quer alguma coisa, fofa?
- Fofa, né? Fofa porque eu é que vou pagar a sua bebida né?
- Puxa, como você adivinhou?
- Ainda tira uma com a minha cara! Não vendeu mais alarmes?
- Quem é que quer alarmes nessa situação? Acho que vou inventar é uma daquelas coisas individuais de voar. Nem barcos adiantam nos piores dias.
- Você devia inventar uma bebida, isso sim.
- Eureca! Isso sim é uma grande idéia! O que é que todo mundo quer no meio da desgraça? Beber!!! Nara, você é um gênio.
- Eu sei. Só sou preguiçosa demais para ficar rica, não é? Igualzinha a você né, Mojinho? - Acariciando a barriga do gato que está deitado em seu colo - Bom, pelo menos é bem provável que todo mundo fique pobre depois do que, segundo suas previsões, vem por aí...

sábado, 29 de novembro de 2008

A Ilha - I

É mais um dia em que, com a xícara na mão, Samanta olha pela janela e vê A Ilha coberta de nuvens negras. A Ilha castigada, um pouco por desejar. Um pouco por nada. Se há alguém que olha do céu e ri, não é deus, mas um dos bebês extra-terrestres que brincam conosco.
E fazem já dois anos terrestres que Chilow-wilo (pelo menos é assim que se pode representar a fonética de seu nome para nós) deita essa nuvem sobre A Ilha com imenso prazer, ou algo que para ele seja equivalente a isso. Podemos chamá-lo ele ou ela.
Mas querer explicar mais sobre Chilow-wilo ou seus irmãos é inútil, já que nunca seremos (ou melhor, não somos até agora, um pouco pela vontade deles) capazes de compreender seu intelecto ou sua maneira de estar no tempo ou sentir o mundo. O melhor a fazer é mesmo desenhá-los como caricaturas de seres terrestres.
O fato é que Chilow-wilo aparenta ser o bebê Chingkon mais feliz dentre seus irmãos. O seu brinquedo é sem dúvida o mais divertido. E ele nem precisa fazer nada além de assistir, aliás lhe é recomendado que não faça. Mas de vez em quando ele, como posso dizer... cospe e sopra e envia eletricidade com o seu único olhinho, o que rende diversão para alguns dias, ou meses. É difícil falar em uma medida comum de tempo.
Os outros bebês Chingkon têm também brinquedinhos, quase iguais aos de Chilow-wilo, mas não se divertem tanto. Talvez seja porque ele é muito espertinho e cuida de seu brinquedo de modo que funcione corretamente por muito tempo.
Samanta termina seu café, liga o computador. É sábado, não vai trabalhar hoje, mas mesmo assim verifica seus e-mails. É 2008, e ela não tem um carro voador, mas tem um telefone que pode levar pra qualquer lugar, e que além disso é câmera fotográfica, filmadora, gravador, editor de texto e gps. É engraçado como ninguém previu essas coisas banais na ficção científica. Viagens à lua, grandes invenções de objetivos nobres, foram imaginadas. Mas a humanidade avançou mais em brinquedinhos de que precisa para não se manter séria o tempo todo. As coisas muito sérias não precisam ser muito aperfeiçoadas afinal. Em geral são inventadas e construídas por pessoas sérias demais para cometer um erro. Além disso, ninguém enjôa de coisas sérias, pelo menos não tão rápido.
Samanta gostaria de ir à praia hoje. Mas A Ilha parece amaldiçoada novamente.

sábado, 15 de novembro de 2008

“Amor tem que ser cru, meu bem”.

Alécia expressava mais uma de suas respostinhas com tom afetado. “Meu bem?”, pensou Sara, enfurecendo-se lentamente com aquela frase pretensiosa, principalmente porque havia um caráter explicativo de demasiada simplicidade para seu sofrimento. A intensidade de sua raiva servia exatamente como medida das verdades tortas de Alécia. Fosse como fosse, pelo menos parecia verdade, mesmo sendo tosca. A garantia disso era o respeito de Sara pela amiga, quase uma admiração, embora sem muito fundamento. Sem contar o fato de que Alécia regozijava-se desse papel de garota sabida e talvez por isso sabia interpretá-lo muito bem: outra faceta de sua impulsividade comedida, seguramente delimitada – afinal, Alécia não era a doida que muitos imaginavam – e invejavam. A grande sacada era justamente o fato de que nem ela acreditava em suas frases de efeito, soltava-as com espontaneidade e geralmente se chocava com seus dizeres. “Bobagem”, Alécia e Sara pensaram.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Alécia

segurava o cigarro e o mantinha entre a ponta dos dedos, tragando uma ou duas vezes, e sem esperar acabar logo o apagava na superfície do cinzeiro. Mantinha os olhos em atenção flutuante, dando nítida impressão de descontentamento ou um ar de quem despreza sem motivo. Fingia certo desprazer em estar ali só, sentada na mesa ao canto – de fato se sentia toda: cada parte do corpo por detrás do vestido, subia toda a sensação de ser observada delicadamente por um ou outro. Observação inconstante de homens, mulheres e garotos ao redor, invasivos em seus olhares, desviavam receosos quando se deparavam com o contra-olhar de Alécia – indireto, sutil em significado, pleno de intenções. Sua figura solitária causava desconforto e toda sua presença clamava por companhia, não sem motivo, imaginavam todos que se ela estivesse com alguém não estaria a perscrutar o local com aqueles olhos tão inconseqüentes.

O ambiente estava seco e quente. Para matar o tempo, Alécia deslizava o dedo nas bordas do copo, somente apreciando o líquido pelo tato, cultivando gradativamente aquela sensação desgastante de sede. O tempo esboçava cada segundo sem chance para esperada rapidez subjetiva do fluir. A impaciência ensaiava sua aparição, quando finalmente ela avistou o contorno de sua esperada companhia. Deu um prolongado gole na bebida – olhos cerrados – pensando em tudo que iria dizer e sentindo seu corpo esquentar e estremecer de ansiedade.

sábado, 4 de outubro de 2008

"Não quero levantar", murmurou Sofia, deitada na cama, ainda com a cabeça enterrada no travesseiro.


Um vento intermitente abria e fechava uma frestinha da cortina, lançando evidências de que o dia já estava acontecendo e a luz clamava por cenas do cotidiano. O corpo dela estava pesado, todo preguiçoso, arrastando-se num sono macio.

"Sofia...So-fia", uma voz um pouco rouca chamava quase inaudível.

"Alguém me chama, tão cedo...Quem será?", Sofia somente puxava uma linha de pensamento arrastado, lerdo a perseguir uma conclusão.

A cidade havia começado a gritar suas buzinas, um som todo abafado pela janela. O ar no quarto estava pesado, quente, quase sufocante. Sofia tentou abrir os olhos e, por um segundo, viu um pedaço do quarto, todo coberto de uma luz amarela. A cama balançou e alguém que estava a seu lado andou de um lado ao outro - umas três vezes, parou, puxou uns zíperes, pisou forte uma ou duas vezes e saiu.

"Ah...Ele saiu. Como vou sair?", divagou a moça, sem chance de concluir algum porquê do momento.

Perdeu, então, a consciência - afundou nos lençóis em sonhos desprovidos de lembrança. Ela mexia a cabeça passando o rosto pelo travesseiro, de um lado a outro, devagar - cabelo todo solto e espalhado - um fio de luz a incomodava inconscientemente. Mais tarde a vida se resolvia, naquele momento estava muito abafado, tudo, um calor onipresente penetrava nos sonhos dela e logo sua mente pulou num rio gelado e passou a mergulhar fundo. O amanhã só aconteceria ao acordar. Ela reservou a surpresa de onde estava para depois - mais tarde - enquanto seu corpo deslizava suave se esquivando do lençol, ela, assim, descobria-se devagar.